O modelo desenvolvimentista é explicitado, no Brasil, principalmente nos trabalhos de Tani et alii (1988) e Manoel (1994). A obra mais representativa desta abordagem é “Educação Física Escolar: fundamentos de uma abordagem desenvolvimentista” (Tani et alii, 1988). Vários autores são citados no trabalho exposto, mas dois parecem ser fundamentais; D. Gallahue e J. Connoly.


Para Tani et alii (1988) a proposta explicitada por eles é uma abordagem dentre várias possíveis, é dirigida especificamente para crianças de quatro a quatorze anos e busca nos processos de aprendizagem e desenvolvimento uma fundamentação para a Educação Física escolar.

Segundo eles é uma tentativa de caracterizar a progressão normal do crescimento físico, do desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social, na aprendizagem motora e, em função dessas características, sugerir aspectos ou elementos relevantes para a estruturação da Educação Física escolar.

Você já ouviu falar em habilidades locomotoras, manipulativas e de estabilidade? E em taxionomia do desenvolvimento motor?

Os autores dessa abordagem defendem a idéia de que o movimento é o principal meio e fim da Educação Física, defendendo a especificidade do seu objeto. Ou seja, uma aula de Educação Física não pode ocorrer sem que haja movimento.

A proposta desta abordagem segundo os autores também não é buscar na Educação Física solução para todos os problemas sociais do país, com discursos genéricos que não dão conta da realidade.


Em suma, uma aula de Educação Física deve privilegiar a aprendizagem do movimento, embora possam estar ocorrendo outras aprendizagens em decorrência da prática das habilidades motoras. Aliás, habilidade motora é um dos conceitos mais importantes dentro desta abordagem, pois é por meio dela que os seres humanos se adaptam aos problemas do cotidiano, resolvendo problemas motores.

Grande parte do modelo conceitual desta abordagem relaciona-se com o conceito de habilidade motora. Como as habilidades mudam ao longo da vida do indivíduo, desde a concepção até a morte, constituíram-se numa importante área de conhecimento da Educação Física, a área de desenvolvimento motor.



Do mesmo modo, estruturou-se também uma outra área de conhecimento em torno da questão de como os seres humanos aprendem as habilidades motoras, a área da Aprendizagem Motora.

Para a abordagem desenvolvimentista, a Educação Física deve proporcionar ao aluno condições para que seu comportamento motor seja desenvolvido pela interação entre o aumento da diversificação e a complexidade dos movimentos.

Assim, o principal objetivo da Educação Física é oferecer experiências de movimento adequadas ao seu nível de crescimento e desenvolvimento, a fim de que a aprendizagem das habilidades motoras seja alcançada. A criança deve aprender a se movimentar para adaptar-se às demandas e às exigências do cotidiano em termos de desafios motores.

A partir dessa perspectiva passou a ser extremamente veiculada na área a questão da adequação dos conteúdos ao longo das faixas etárias.

Como no domínio cognitivo, foi proposta uma taxionomia para o desenvolvimento motor, ou seja, uma classificação hierárquica dos movimentos dos seres humanos, do nascimento à morte.

Os conteúdos devem obedecer uma seqüência fundamentada no modelo de taxionomia do desenvolvimento motor, proposta por Gallahue (1982) e ampliada por Manoel (1994), na seguinte ordem:

• fase dos movimentos fetais, 
• fase dos movimentos espontâneos e reflexos, 
• fase de movimentos rudimentares, 
• fase dos movimentos fundamentais, 
• fase de combinação de movimentos fundamentais e movimentos culturalmente
determinados.

Tais conteúdos devem ser desenvolvidos segundo uma ordem de habilidades, das mais simples que são as habilidades básicas, para as mais complexas, as habilidades específicas. As habilidades básicas podem ser classificadas em habilidades locomotoras (por exemplo: andar, correr, saltar, saltitar) e manipulativas (por exemplo: arremessar, chutar, rebater, receber) e de estabilização (por exemplo: girar, flexionar, realizar posições invertidas).

Os movimentos específicos são mais influenciados pela cultura e estão relacionados à prática dos esportes, do jogo, da dança e, também, das atividades industriais.

Habilidades mais simples, habilidades básicas
habilidades locomotoras, habilidades manipulativas
habilidades de estabilização
Habilidades mais complexas, habilidades específicas
esporte, dança
jogo, atividades industriais

Nesta proposta o erro deve ser compreendido como um processo fundamental para a aquisição de habilidades motoras. Os autores mostram preocupação com a valorização do processo de aquisição de habilidades, evitando-se o que denominam de imediatismo e da busca do produto.

Uma das limitações dessa abordagem refere-se à pouca importância ou a uma limitada discussão sobre a influência do contexto sociocultural que esta por trás da aquisição das habilidades motoras.

A questão que se coloca é a seguinte: será que todas as habilidades apresentam o mesmo nível de complexidade? Ou será que chutar, principalmente em função da história cultural do nosso país não é mais simples para os meninos do que a habilidade de rebater? Outros exemplos podem ser previstos: ensinar a nadar em cidades litorâneas deve ser diferente do que em outros tipos de cidade, tanto no que diz respeito aos objetivos de ensinar/aprender a nadar quanto às experiências que as crianças têm em relação ao meio líquido.

Na abordagem sociocultural da aprendizagem e do desenvolvimento humano proposta por Vygotsky a importância do meio cultural e das relações entre os indivíduos na definição de um percurso de desenvolvimento humano é enfatizada. Portanto, será diferente ensinar futebol para meninas e para meninos, porque o percurso de desenvolvimento é em parte definido pelo processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie humana, mas é a aprendizagem que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que não fosse o contato do indivíduo com certo ambiente cultural não ocorreriam (La Taille, Oliveira, Dantas, 1992).

Como seria uma aula prática na abordagem desenvolvimentista?

Uma atividade que poderia ocorrer numa aula nessa perspectiva seria a seguinte:

Os professores dividiriam os alunos em 4 grupos e cada grupo realizaria uma atividade num lugar específico. Depois todos trocariam as posições. (Habilidades em circuitos).

O objetivo da aula seria trabalhar a habilidade de saltar. Por exemplo,

• Na primeira estação os alunos seriam estimulados a vir correndo e saltar entre duas cordas estendidas no chão.
• Na segunda estação saltar um obstáculo que pode ser um banco sueco.
• Na terceira estação vir correndo e saltar de lado as mesmas cordas.
• Na quarta estação deveriam saltar de costas entre as cordas.

Deu para visualizar esta aula? 

Na verdade, o importante para essa perspectiva é que os alunos não permaneçam muito tempo na fila esperando, daí a estratégia de trabalhar em circuitos.

Outro aspecto presente nesta aula é a importância de variar as possibilidades de saltar: frente, alto, lado e costas.

Agora é com você !

Tente lembrar da sua formação na faculdade de Educação Física.

Você se lembra de alguma disciplina que tenha discutido os conceitos da abordagem desenvolvimentista?

O que você achou mais importante nesta abordagem? Quais são as suas vantagens?

Você consegue pensar em outras atividades práticas nesta tendência? 

Fonte: Capacitação Continuada Ministério do Esporte - Projeto Segundo tempo.